quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Qual é o lugar do velho na nossa sociedade?




Uma das patologias mais marcantes que acompanha a velhice é a depressão. Muito difícil um idoso ao atingir a quarta idade, ou antes, não apresentar sintomas depressivos, mesmo tendo um estilo de vida saudável e condições de vida tanto no plano físico como no emocional relativamente dentro dos padrões da normalidade. Viver a velhice por si só já é uma barra. Acompanhar a degenerescência do próprio corpo e as transformações sociais que isso acarreta não é bolinho pra eles e nem será para nós.

Não é incomum me acharem neurótica na preocupação que tenho com meus filhos que atingirão a maturidade no início do ano que vem. Eu me preocupo mesmo e me preocuparei sempre, independentemente da idade que tiverem, assim como me preocupo com todas as pessoas que amo. Meu zelo é do mesmo tamanho da minha confiança e meu temor é pelo mundo e não por eles. Às vezes tenho a sensação de que determinados fenômenos sociais beiram o descontrole e quem estiver de desavisado no meio do caos vai ter que apelar para o "salve-se quem puder". E é esse o nosso atual modelo de sociedade e civilização.

A cidade de São Paulo nunca passou por um período tão insano desde que me mudei para cá. Viver em São Paulo tem sido um exercício de equilíbrio, bom senso, prudência e fé. Para quem tem acompanhado os noticiários, já sabemos que do início da semana pra cá a média de mortes por assassinato tem sido a de dez pessoas por dia, desde que a polícia decidiu dar a baixa anti o tráfico de drogas iniciado na favela de Paraisópolis na segunda feira depois das eleições. Já há algum tempo as cracolândias têm se expandido no centro e nas periferias de forma vertiginosa, as pessoas que residem nesses locais estão ilhadas e temem perder a própria vida obedecendo ao "toque de recolhimento" no final do dia imposto pelos bandidos. Comércios abandonam pontos, pessoas abandonam residências e não conseguem comercializar seus imóveis. Quem mora nesses locais precisa chamar viatura de polícia pra conseguir entrar e sair de casa tentando não ser atacado por um bando de zumbis noiados. O pior é que dentre os zumbis estão crianças, mulheres grávidas e uma infinidade de pobres coitados que já perderam toda e qualquer perspectiva de vida, mas que ameaçam a daqueles que ainda a tem.

Uma mãe, um adulto, em primeiro lugar pensará em garantir a si mesmo e aos seus. Não medirá esforços para que seus filhos sobrevivam ao caos e garantam um futuro digno para eles e seus descendentes. Trinta e cinco ônibus já foram incendiados pelos bandidos para baixar o terror na sociedade em pontos distintos da cidade no intuito de dispersar a ação dos policiais. Até que ponto você está seguro no seu bairro ninguém sabe. É factível pensar que num belo dia você possa sair para passear com o seu cachorro, seja abordado por um bandido ou por um nóia e seja lá o que Deus quiser. Nessa hora eu me lamento muito pelo Brasil ser o país da festa, da malandragem e que a seriedade não seja uma qualidade cultivada como atributo de identidade nacional. Ser alegre é uma coisa, ser alienado e se permitir tanta vulnerabilidade é outra.

Aí eu pergunto: aonde está o espaço para o velho e para o envelhecimento no meio disso tudo? Como é que as famílias vão cuidar dos seus idosos se morrem de medo de perder suas crianças? E os idosos merecem finalizar um percurso de vida em condições precárias, entre pessoas estressadas, que vivem em permanente estado de alerta? Um idoso significa um percurso inteiro de uma vida. Não faço a apologia de que todo velho seja "flor que se cheire", mas muita gente que dá trabalho na velhice foi ser humano de muito valor na juventude e na maturidade, fez muito por muita gente e merece finalizar a vida nesse planeta de forma digna. No meio do "salve-se quem puder" quem acaba saindo por último, infelizmente é o velho.

A condição humana precisa ser repensada com urgência e atitudes têm que ser tomadas. Antes que seja tarde demais e sobre para nós. 

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